FINGIR QUE ESTÁ TUDO BEM
Sou tímida desde que me lembro. Quando era pequena era tímida mas sociável e fazia amigos com facilidade até porque me tornava engraçada com aquele jeito. Com vinte, quase vinte e um anos sou, diria eu, tornei-me patologicamente tímida. Impede-me de fazer amigos e perdi os que tinha uma vez que entrei para a faculdade e a situação tornou-se mais difícil em termos de convívio e acabou por aparecer um constrangimento que faz com que vire a cara ao lado quando vejo alguém perto. Tenho noção de como ajo e como sou mas quando estou na situação o cérebro pára ajo sempre da mesma maneira. Na faculdade as coisas começaram a correr mal porque sem amigos, poucos conhecidos e uma sensação de que todos reparam que não falo com quase ninguém, etc., é desmotivador e falto tanto quanto posso. Juntando à timidez estou com um problema de ter um namorado de quem gosto como amigo mas não consigo dizer-lhe. É insuportavel pensar em magoar alguém, não sou capaz de lhe dizer e claro que tenho medo de ficar mais isolada prque só convivo com a família e com ele. Como se não bastasse, estou com comportamentos compulsivos do género de tocar nas coisas varias vezes... (é a primeira vez que escrevo ou falo sobre isto e estou com um nó no estomago...). Não aparento alguém com sentimentos depressivos nem nada disso, sou alegre junto da minha família, falo muito, rio sempre e faço um esforço enorme por manter a boa disposição de quem me rodeia. Já no passado tive sintomas de anorexia que passaram pela perda de peso, pesagem da comida, exercício fisico que chegava aos oitocentos abdominais por dia, hipersensibilidade ao frio, mas passou da mesma maneira que começou, sem precisar de ir ao médico. Digo isto a propósito dos comportamentos compulsivos que se calhar já vêm dessa época. Dantes via-os como um tipo de superstição mas depois percebi quando vi na televisão uma descrição daquilo que eu fazia. Não melhorou por ter noção, até piorou e o que me motiva (mais uma vez é a primeira vez que falo disso) é proteger os meus pais. Eu não me sinto alguém com depressão, não quero tomar calmantes, não sinto a necessidade deles mas quando escrevo sobre estas coisas tenho noção do que se passa e fico com medo de estar deprimida mas sinceramente não me quero entregar a essa sensação porque apesar de tudo eu combato isso, pelo menos à superfície, com boa disposição e às vezes penso que quanto mais alegre estou menos bem estou por dentro. Sou muito sensível aos problemas das pessoas que amo e sentir que estão tristes deixa-me mal - pareço uma antena que capta as emoções dos outros. Enfim, a descrição assim parece muito má mas mesmo sentindo cada uma dessas coisas no todo não estou arrasada nem nada que se pareça - tenho episodios de tristeza e nostalgia mas facilmente alguém de que gosto me pode fazer ficar bem.
S.
Mais importante do que dar um nome ao seu problema, é, do meu ponto de vista, reconhecer o seu impacto. Ou seja, o rótulo é só isso mesmo, um rótulo. No entanto, existem dificuldades a que fez referência que estão a comprometer o seu bem-estar e a realização de tarefas quotidianas consideradas banais. Sem querer fazer diagnóstios abusivos, devo alertá-la para a necessidade de estar demasiado centrada nas expectativas das pessoas que estão à sua volta. Talvez seja a hora de dar voz às suas emoções. Partilhar a sua angústia e as suas preocupações com os seus pais, com o seu namorado ou com qualquer outra pessoa de quem goste pode parecer-lhe assustador, mas é o caminho mais ajustado. Só assim permitirá que estas pessoas lidem consigo de forma ajustada e honesta. Por exemplo, ao não querer magoar o seu namorado, está a impedi-lo de ser verdadeiramente feliz ao lado de alguém que o ame. É certo que uma ruptura é quase sempre sinónimo de dor e sofrimento, mas estas emoções são temporárias e ajudam-nos a crescer.
Fingir que está tudo bem é só mais uma forma de se convencer de que está a controlar as suas dificuldades. A prazo, essa ilusão poderá voltar a dar lugar a comportamentos disfuncionais, como a anorexia por que já passou. É isso que acontece quando as nossas emoções são contidas, em vez de serem assumidas e geridas de forma inteligente. Só se estiver disposta a aceitar-se como é e a dar-se a conhecer como é, conseguirá lidar com as pessoas com quem convive e fazer amigos que tanta falta lhe fazem.
À primeira vista este pode parecer-lhe um desafio insuportável, mas posso garantir-lhe que existem muitas jovens com o mesmo padrão de dificuldades e que é possível revertê-lo. Sugiro que fale com um psicólogo experiente e/ou com o seu médico de família. Mesmo que não esteja com vontade de fazer nenhuma medicação neste momento, existe sempre a possibilidade de ser ajudada através da psicoterapia.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Amor, Ansiedade, Comportamento Alimentar, Depressão
MAL-ESTAR FÍSICO OU PSICOLÓGICO?
Tenho 29 anos e sempre fui uma pessoa saudável, embora reconheça que tenho um trabalho bastante stressante, que me ocupa mais de 8h diárias, e que tenho uma vida completamente sedentária nos últimos anos. Apesar de já ter tido há alguns anos ligeiras depressões que, felizmente, passaram... este ano tem sido um ano muito difícil para mim. Felizmente, tenho uma família espectacular, amigos e sou uma pessoa bastante sociável e bem disposta. No entanto, como referi, este ano não tem sido muito fácil, devido a certos acontecimentos, desde a perda do meu animal de estimação, que considerava mais do que uma pessoa da família, e umas fortes dores de cabeça que se alojaram durante uma semana consecutiva. Fui ao médico e diagnosticaram a minha hipófise dilatada, ou seja, com um tamanho não desejável. Apesar do medo que tive antes de saber os resultados desta doença, perdi outro ente querido antes de embarcar para uma viagem, o que fez com que não me despedisse do mesmo e não tivesse o apoio da família directa durante alguns dias. Passados três meses de sucessivos exames médicos, finalmente descobrimos que apesar da dilatação da hipófise, estava tudo a funcionar normalmente. Confesso que me saiu um peso de cima, porque tive bastante medo do que pudesse advir daí. Quando regressei ao trabalho, as dores de cabeça regressaram, embora menos constantes e menos fortes... e sabendo que não mudei o meu ritmo, pensei que fosse apenas cansaço. Nesta semana, de repente e no meu local de trabalho, voltaram a surgir as dores (embora menos fortes), associadas a náuseas, sensação de comida na garganta, desequilíbrios e grande mal estar. A minha vontade era estar sempre a segurar a cabeça, especialmente na zona da nuca e cervical e tinha a sensação de que a mesma ia explodir. Vim para casa, contactei a linha saúde 24, que me aconselhou ir ao CATUS da minha residência. A médica que em atendeu disse que poderia ser várias coisas, desde a visão (pois sofro de hipermetropia e uso óculos e lentes de contacto), pois posso não ter a graduação correcta e disse-me que a minha cervical estava inflamada. A verdade é que passo o dia todo num local de trabalho com más condições e consequentemente com uma má postura e mais de 8h em frente a um computador, com fraca luminosidade, com monitores antigos e bastante ruído. Receitou-me uma loção para massajar a zona da cervical e um anti-inflamatório. No dia seguinte não fui trabalhar e descansei, levando a que os sintomas fossem diminuindo. Ontem fui trabalhar e só aguentei até à hora de almoço, recorrendo a um serviço de urgência hospitalar. Os sintomes ainda foram piores: náuseas, desequilíbrios, dores de cabeça, suores, dormência nas pernas e pés, vómitos, aceleração cardíaca, sensação de paralisação de algumas zonas da face e pescoço... entre outros. Após 2,5h de espera, uma crise de nervos e choro apoderou-se de mim, fazendo com que a minha chamada fosse mais rápida. Depois de me acalmar um pouco, consegui transmitir tudo ao médico, que após visualização de todos os meus exames, me disse que estava tudo bem com a minha cabeça e que acreditava que poderia ser uma grande crise de ansiedade. Medicou-me na hora com um relaxante muscular e melhorei. Receitou-me outro ansiolítico, e hoje já me senti melhor, embora com algumas sintomas mais fracos, apesar de não ter ido trabalhar, para descansar. Confesso que tenho receio destas doenças psicológicas, que tenho medo de voltar a ir trabalhar e associar aquele sítio ao lugar onde já me deu este problema três vezes, e passar a ter uma fobia... Sei que tenho de mudar os meus hábitos e acalmar-me... mas confesso que, tendo sido sempre o pilar da família e dos amigos, me sinto muito "pequenina" neste momento. O que me aconselha ou qual a sua opinião deste pequeno relato da minha vida actual?
A.
Não posso nem devo fazer qualquer diagnóstico via Internet, mas a sua situação é, infelizmente, comum a muitas outras pessoas. Claro que percebo a sua angústia e partilho da sua preocupação, mas devo dizer-lhe que a sua tranquilidade deve ser directamente proporcional ao resultado dos exames a que se tem sujeitado. Fez muito bem em recorrer à ajuda médica para despistar a possibilidade de existir alguma complicação física. Realizado este despiste, não vejo motivos para temer o aparecimento de qualquer fobia, nem mesmo de outra perturbação grave. Reconheço, isso sim, que é provável que tenha estado submetida a níveis de stress e pressão demasiado violentos. Como é de carne e osso como as pessoas que normalmente apoia, é natural que se sinta esgotada e que precise de abrandar o ritmo. Por outro lado, e porque não sei qual é a possibilidade de implementar mudanças no seu trabalho, também me parece ajustado que possa equacionar outros recursos. Por exemplo, o desporto é altamente terapêutico em situações de burnout - permite-nos descomprimir, ao mesmo tempo que produzimos hormonas imprescindíveis ao nosso bem-estar. Outra sugestão que gostaria de lhe deixar é a de, mais frequentemente, deitar cá para fora aquilo que a incomoda. É também para isso que servem os amigos e todas as pessoas que gostam de nós. O preço de acumularmos as nossas angústias pode passar pela ocorrência de crises de ansiedade, que não são mais do que um alerta emitido pelo nosso corpo.
SOU MUITO PESSIMISTA
Tenho 24 anos e sou muito pessimista. Não gosto muito de mim, no entanto, acho que até sou uma pessoa interessante... Como devo fazer para pensar de outra maneira, para aprender a gostar de mim, para ter confiança em mim, para ser um pouco mais positiva?
S.
O optimismo é uma característica de personalidade que pode ser treinada. Qualquer pessoa, em qualquer idade, pode e deve investir nesta competência. Mesmo que o nosso cérebro nos empurre muitas vezes para olharmos para a realidade que nos circunda de forma negativa, é possível treiná-lo no sentido de também reconhecer todas as coisas positivas que acontecem diariamente. Se for capaz de, ao longo de várias semanas, anotar todos os dias 3 coisas positivas que lhe aconteçam (mesmo que sejam muito simples), reconhecendo também o que é que teve de fazer para que elas acontecessem, estará a colocar em prática um dos mais conhecidos exercícios da Psicologia Positiva. Olhe à sua volta e procure identificar todas as pessoas que frequente ou pontualmente contribuíram para que se sentisse feliz e escreva-lhes uma espécie de carta de gratidão. Mesmo que não entregue estas cartas, elas serão em si mesmas terapêuticas, porque a ajudarão a treinar o seu optimismo.
CIÚMES DA EX
Tenho 28 anos e vivo junta há um ano com o meu namorado de 33 anos. Ele é um homem maravilhoso em todos os aspectos. Ambos temos filhos de relacionamentos anteriores, eu uma filha de 7 e ele um filho de 4. Os filhos não vivem conosco, apesar do filho dele passar muito tempo connosco. Somos nós que o vamos buscar à escola, damos jantar e aos fins-de-semana está praticamente sempre na nossa casa. A minha filha vive com o pai e avós, e passa os fins-de-semana connosco. Estamos no primeiro ano de relacionamento e confesso que foi um pouco complicado da minha parte lidar com a mãe do filho dele. É uma pessoa presente, claro, temos uma relação de cordialidade e respeito. Mas por vezes tinha ciúmes dela, por ter sido a mãe do primeiro filho dele, por terem tido um relacionamento em comum... Enfim, os ciúmes acabaram, ultrapassei após várias conversas com ele. Creio que tive algumas dificuldades de auto-estima e confiança, até porque as minhas anteriores relações não duraram mais de um ano (relações posteriores à do pai da minha filha, separámo-nos quando ela tinha 1 ano e meio). Desde o início que eu e o meu companheiro temos os mesmos objectivos e sonhos... O que é fantástico! Sou uma sortuda por ter encontrado alguém com quem de facto posso partilhar não só interesses, mas também objectivos de vida. Ambos queremos ser pais novamente. Conversamos muito, temos um bom diálogo. Tivemos duas discussões mais acesas, mas nada que não tenha sido resolvido. Acho que temos boas bases,amizade, carinho, companheirismo, apoio, e a nossa vida sexual é fantástica. Isto é excelente. Só há algo que me preocupa, que é o meu feitio. Tenho tendência a fazer comparações com a ex em quase tudo, o que me irrita profundamente, e a ele também, porque naturalemtne acabamos por abordar o assunto. Eu e ela somos dieferentes, é um facto. Sei que é diferente. Ele diz que sou a mulher da vida dele. E ele com certeza é o meu. Quero que a nossa relação seja feliz e saudável. Gostava que durássemos até "que a morte nos separe". Ele diz que quer ficar comigo e construir a sua vida comigo. Nunca tive ninguém assim. É tão bom e tão assustador. Arrependo-me sempre que discuto com ele sobre a ex, peço desculpas , reconheço o meu erro. Mas o que eu quero mesmo é parar com as comparações, e não me sentir irritada com o que eles tiveram. Não quero estar constantemente a pensar no que eles fizeram, ou deixaram de fazer, como foi. Também tenho este medo irracional de o perder, ou de achar que após cada discussão que temos ele pense em acabar comigo. Às vezes penso que vou dar em doida. Por um lado, sinto que temos tudo para dar certo, pois estamos a construir boas bases e amamo-nos muito. Por outro lado, não quero que acabe e não quero que as nossas discussões girem sempre em volta do mesmo assunto.
S.
Os ciúmes são, de um modo geral, saudáveis e inócuos. Claro que existe um limite a partir do qual a insegurança de um dos membros do casal pode comprometer a satisfação de ambos. Neste caso, os medos que tão bem classifica como irracionais são com certeza uma enorme fonte de angústia para si e motivo de tensão e aborrecimento para o seu companheiro. Travar as suas ruminações pode não ser um processo fácil, mas é possível. Importa que seja capaz de reconhecer os sinais que o seu corpo lhe emite: sempre que se sentir enervada, com o coração acelerado, a enfurecer com pensamentos derrotistas e comparações inúteis, "saia de cena". Reconhecer que está a entrar num ciclo de irracionalidade é o primeiro passo para impedir que profira comentários que possam minar a sua relação. É preferível retirar-se e tentar acalmar-se sozinha. Em alternativa, quando se sentir mais angustiada por estas crenças irracionais, telefone a alguém da sua confiança para desabafar, permitindo que um(a) amigo(a) chame a sua atenção. Paralelamente, procure identificar aquilo que a fragiliza. Deixe de fazer quaisquer comparações e centre-se naquilo de que gosta e naquilo de que não gosta em si. Se for capaz de identificar as suas próprias vulnerabilidades, ser-lhe-á mais fácil geri-las. Continue a investir na sua relação e procure viver intensamente cada dia deste projecto que a faz tão feliz.
DILEMA AMOROSO
Ando num dilema desde há uns meses a esta parte. Há cerca de um ano houve o rompimento de uma relação de 2 anos, na qual apostava tudo como sendo a relação da minha vida. Um amor inexplicável em que tudo era perfeito até ao dia em que me contou da traição que cometeu. Tentei ultrapassar essa questão e voltar a apostar que iria dar certo, mas não! Eu não confiava e, por mais que tentasse, havia sempre o medo de que voltasse a acontecer. Acabámos em Fevereiro de 2008 e estive até Janeiro deste ano sem conseguir deixar outro alguém entrar na minha vida. Aliás, a minha vida passou a ser apenas trabalho. Em Janeiro conheci alguém que me dá toda a estabilidade, calma, segurança, carinho e atenção que se pode querer, mas... Apesar de ter "aquela relação que todos ambicionam", continuo a pensar na outra pessoa e chego mesmo a sentir saudades do que vivi. Apesar de termos estado meses sem nada sabermos um do outro, o destino voltou a fazer com que os nossos caminhos se cruzassem e desde então passou a ligar-me de madrugada e passa o dia a enviar-me mensagens. Sei que é ridiculo pensar em trocar o certo pelo incerto, mas assim também não me sinto completa nesta relação... Há algo que falta. Gosto da pessoa com quem estou, gosto do tipo de relação que temos e gosto muito da pessoa, mas falta aquela intensidade que só o amor nos transmite. Tenho 26 anos, será que vale a pena correr atrás desse amor ou é melhor manter-me na estabilidade e no aconchego em que estou?
V.
Se olhar com atenção para as palavras que partilhou comigo, reparará provavelmente que foi muito clara em relação àquilo que a angustia. Em primeiro lugar, não se refere ao facto de sentir saudades do seu ex-namorado, mas sim saudades do que viveu com ele, o que me parece bastante natural. Ainda que tenham estado quase um ano separados, deu o seu melhor nesse namoro e amou muito esta pessoa. Apesar de ter tentado dar uma nova oportunidade a esta relação, percebeu que, pelo menos naquela altura, não estaria preparada para superar a traição.
Quanto à relação que agora vive, refere-se a esta pessoa como alguém de quem gosta e que lhe transmite segurança, mas não é clara em relação ao amor. Presumo, por isso, que apesar de admirar a pessoa que agora tem a seu lado, não se sinta ainda segura dos seus sentimentos. Ora, talvez seja precisammente o facto de estar a tentar fazer vingar uma relação, apesar de não se sentir apaixonada, que a leva a estabelecer comparações com aquilo que viveu no passado.
Mais do que substituir uma pessoa que já foi muito importante na sua vida, é importante que se liberte de todos os constrangimentos e que se entregue a uma relação quando voltar a sentir-se verdadeiramente apaixonada. Não adiantará andar à procura de segurança se não se sentir romanticamente envolvida pela pessoa que escolher. O preço pode ser viver com o fantasma do passado.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Amor, Infidelidade
CRIANÇA SOB STRESS
A minha filha (10 anos) tem ataques de tosse quando está sujeita a situações de stress/ansiedade. Ela é praticante de karaté e isso está a prejudicá-la nas competições. Como se pode tratar isso?
O.
As crianças reagem frequentemente à ansiedade e ao stress através de dores não especificadas ou queixas físicas. Esta tosse a que se refere não é mais do que uma chamada de atenção da sua filha para o facto de, por algum motivo, estar a sofrer. É possível que a competição se esteja a sobrepor ao carácter lúdico da actividade desportiva. Sugiro que, fora do ambiente de treino, converse com a sua filha sobre aquilo que a estará a incomodar. Não minimize as suas preocupações. Procure antes ouvi-la atentamente e mostrar-lhe que os medos são comuns a muitas outras crianças. Evite pressioná-la no sentido da competição e aproveite todas as oportunidades para elogiar os seus progressos. Fale com o treinador/ monitor e procure perceber se existem outros factores que possam estar na origem da instabilidade da sua filha. Se as dificuldades se prolongarem, procure falar com o pediatra da sua filha e/ou com um psicólogo.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Ansiedade, Educação dos Filhos, Família
VAGINISMO
Eu estou com a minha actual esposa há já 5 anos e ainda não conseguimos consumar o acto sexual porque ela sente dores horríveis. Creio, pelo que tenho lido, que será vaginismo. Queria saber como tratar isto, onde, com quem e será que tem cura?
P.
Só quem nunca ouviu falar de vaginismo poderá achar estranho que um casal possa estar há tanto tempo a lutar por uma coisa que é, para a generalidade das pessoas, um passo simples e natural. Antes de mais, importa que a sua mulher se submeta a um exame ginecológico, que permita despistar a existência de qualquer problema fisiológico que esteja na origem deste sintoma. Depois desse despiste, poderão recorrer à ajuda de um psicólogo especializado em terapia conjugal e sexual. Apesar de existirem muitos casais que optam por viver o problema em silêncio, eternizando-o, a ajuda especializada existe e é eficaz.
VIVER COM A SOGRA
A minha mulher deixou-me porque eu não suportava viver com a mãe dela ao nosso lado. Diz que eu não a amo o suficiente para gostar um pouco da mãe dela, que é metediça, curiosa etc. Que acha? Eu não fiz nada de mal, quero apenas viver a minha vida, ter independência física e emocional. Sinto-me culpado mas o facto de estar constantemente em nossa casa deixava-me louco. Errei?
S.
Se, por um lado, é absolutamente saudável que existam fronteiras nítidas entre o casal e a família alargada, não sendo, por isso, ajustado que a sua sogra comprometesse a sua independência, também me parece prudente tentar compreender as motivações da sua mulher. A história de vida da sua mulher é seguramente diferente da sua, o que implica que as vulnerabilidades que poderão estar por detrás de algumas escolhas podem merecer um olhar mais atento. Desse conhecimento mais profundo não resultará certamente a anulação das suas necessidades, nem tão-pouco a aceitação de todos os comportamentos da sua sogra, mas é provável que a comunicação possa melhorar.
É possível que nos últimos tempos a irritabilidade tenha tomado conta de si, comprometando os seus diálogos conjugais. Sob tensão é relativamente fácil adoptarmos comportamentos impulsivos, dos quais nos arrependemos de cabeça fria. Converse com a sua mulher e, se for caso disso, equacione a possibilidade de recorrerem à terapia familiar.
CIÚME PATOLÓGICO
Sou uma mulher de 23 anos e recentemente terminei uma relação com um homem de 26 anos que julgo que sofre de ciúme patológico. Amo-o e sinto que estou a desistir apesar de, racionalmente, me dar conta de que a relação era insustentável. Para ele tudo era sinónimo de traição. Tudo. Durante a noite, ao trocarmos sms, eu fechava os olhos porque estava cheia de sono e despertava dez minutos depois com uma chamada dele a acusar-me de estar a falar com outros, quando eu simplesmente tinha adormecido e ele sabia que eu já me tinha deitado. Cada pequeno episódio servia para sustentar uma traição qualquer. Ele dizia também que eu mantinha casos com vizinhos! E sem qualquer fundamento, porque as únicas palavras que eu troco com as pessoas que habitam no meu prédio são de bom dia ou boa tarde. Ele desconfia de tudo... No início da relação ele já se mostrava um pouco inseguro... E de repente começou a ligar pormenores e a montar uma história... Basicamente, parece-me que começou a desconfiar de mim a partir do nada, e cada vez mais e mais. A ser muito ciumento, a fazer-me interrogatórios e a olhar para mim e afirmar que eu o traía. Comecei a ficar com receio de tudo o que eu pudesse dizer ou fazer que fosse suscitar alguma má interpretação. A partir daí foi ficando pior e pior, até chegarem as agressões verbais da parte dele. E eu tolerei sempre por gostar imenso dele. Contudo, terminámos e estivemos separados durante um mês. Voltámos mas só durou duas semanas até nos afastarmos novamente porque ele pura e simplesmente não consegue confiar em mim. Mas ele é completamente paranóico, porque a verdade é que eu nunca o traí, nunca sequer mantive conversas com outros homens. E mesmo assim, tudo era um motivo, até uma música que eu estivesse a cantarolar era porque me lembrava alguém. Não sei o que fazer, isto é tudo menos saudável, mas eu não o consigo esquecer.
M.
À medida que amadurecemos, aprendemos que é possível aliar as emoções à racionalização. A expressão "amar de olhos abertos" faz todo o sentido, sob pena de, em nome de um suposto amor, permitirmos que os nossos sentimentos, concretamente alguns medos, nos impeçam de ver, efectivamente, a realidade em que vivemos. Se, por um lado, é óbvio para mim que o comportamento do seu namorado traduz uma boa dose de possessividade e de irracionalidade, também me parece evidente que a M. não tem sido capaz de dar voz ao seu sofrimento. Não me canso de dizer que os outros fazem connosco aquilo que nós permirirmos que eles façam. Sempre que o seu namorado a acorda com um telefonema acusando-a de estar a traí-lo, não está apenas a ultrapassar os limites do que é razoável - está também a desrespeitá-la, a feri-la e, portanto, a destruir a sua auto-estima. Importa dizer-lhe que acredito que todo este padrão comportamental implica uma grande dose de sofrimento para o seu namorado e que estou certa de que ele não deseja prejudicá-la. Acontece que esta possessividade "serve" essencialmente para que o seu namorado se proteja das suas próprias inseguranças. Sempre que se zanga consigo, sempre que faz um escândalo, o seu namorado evita olhar para aquilo que o entristece, para o que o fragiliza. Trata-se, por isso, de um mecanismo de defesa comum, que merece atenção especializada.
Mais tarde ou mais cedo a M. deverá olhar para tudo aquilo que tolerou até aqui e poderá, nessa altura, avaliar até que ponto as suas inseguranças terão contribuído para a manutenção do problema. Aconteça o que acontecer no futuro, compete-lhe a si definir limites muito claros no que toca ao respeito por si.
EPILEPSIA E CRISES DE ANSIEDADE
A minha mulher sofre de epilepsia, normalmente desencadeada por ansiedade. Ela conseguia controlar as crises perfeitamente até ao nascimento do nosso filho há 9 meses atrás. Desde aí, tem tido muito mais crises e têm vindo a piorar. Diz-se sempre ignorada, cansada, discute por tudo e por nada... Pergunto-lhe como poderei ajudá-la melhor?
N.
Gostaria de esclarecer que a ansiedade não pode ser vista como causa de epilepsia - o que acontece é que a ansiedade é um dos factores que pode contribuir para o surgimento das crises epilépticas. Quanto à situação que descreve, importa também reconhecer que o nascimento de uma criança implica a ocorrência de muitas mudanças num curto período temporal e, claro está, a necessára adaptação não acontece de um dia para o outro. É natural que a sua mulher se sinta mais ansiosa, sobrecarregada e irritadiça, assim como é expectável que esse cansaço seja extensível a si. A verdade é que quase todos os casais encaram esta fase como um período de algum distanciamento. Importa que sejam capazes de olhar para os novos afazeres e que dividam a realização dessas tarefas de forma equilibrada. Quanto maior for a sua participação nos cuidados prestados ao bebé e na realização de tarefas que até aqui eram desempenhadas pela sua mulher, maior será a probabilidade de haver algum alívio do cansaço. Incentive-a a sair regularmente de casa para passear, espairecer, ir ao café ou ao ginásio, sozinha ou com amigas. Esses momentos são essenciais para garantir o bem-estar da sua mulher. Paralelamente, conversem sobre a possibilidade de deixarem pontualmente o bebé com um familiar próximo para que possam estar a sós e conversar sobre aquilo a que chamo "o mundo de cada um". É importante manter-se a par das outras preocupações e interesses da sua mulher, partilhando também o seu dia-a-dia.
AMIGO DEPRIMIDO
Tenho um amigo que costuma cortar os pulsos, resultado de uma depressão! Das poucas vezes que desebafa comigo, (não porque não confie, mas simplesmente porque acha que me chateia e que os problemas são dele e que ninguém tem nada a ver com isso!) apercebi-me de que a sua depressão deriva dos problemas familiares que tem em casa. A relação entre os seus pais perturba-o e muito! Mas confia plenamente no irmão, que não sei se já se apercebeu do problema. Já há muito que o tento ajudar, tento ter o máximo de paciência possível com ele, falando, convidando-o para sair e fazer coisas que sei que gosta de fazer. Mas é rara a vez que aceita, parece que me afasta e quando fala comigo, arrepende-se logo de o ter feito, mesmo antes de eu lhe responder! Eu mostro que pode contar comigo! Somos os melhores amigos e gostava de fazer alguma coisa por ele... Mas já não sei o quê! Eu pensei em falar com o irmão dele para o levar a um médico, mas ele iria odiar-me para o resto da vida!
A.
Acompanhar o sofrimento de um amigo pode ser devastador. Acredito, por isso, que também esteja a sofrer com a impotência a que se vê sujeita. Mas a verdade é que o seu apoio é fundamental. O simples facto de o seu amigo reconhecer em si um ombro a que pode recorrer para partilhar as suas preocupações, as suas dores, é muito importante. Bem sei que dessa partilha pode resultar algum sentimento de culpa, que agravará o problema da auto-mutilação, pelo que é fundamental que a leitora possa tentar ser imparcial, evitando emitir juízos de valor em relação aos restantes membros da família. Mais do que emitir uma opinião, importa que seja capaz de o ouvir e de lhe dar esperança num futuro melhor. Quanto mais o seu amigo reconhecer que não tem de lutar sozinho contra estes fantasmas, maior será a probabilidade de se ver livre deste padrão comportamental.
Ainda assim, parece-me importante que fale com ele no sentido de o incentivar a partilhar estas emoções com alguém especializado, nomeadamente o médico de família. Por mais constrangedor que possa parecer, esta é uma excelente via para o acompanhamento que a situação exige. Em alternativa, poderá falar com o irmão do seu amigo, ainda que isso abale a relação de confiança criada. A saúde do seu amigo deve vir em primeiro lugar e a sua ajuda, ainda que importante, não será suficiente para ultrapassar o problema.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Depressão
ESQUECER A EX-NAMORADA
Tenho namorada e adoro-a, no entanto, tive um grande amor no passado que não me deixa o pensamento. Foi e estou convicto que será sempre o meu grande amor. Todos os dias penso nela. Não estou com ela porque ela não quer e, apesar de amar a minha namorada, não consigo deixar de amar a tal rapariga. Estou a ser acompanhado por uma psicóloga que sabe tudo acerca desta história, mas não temos conseguido tirar-me este sentimento e esta tristeza.
N.
Haverá poucas pessoas que poderão dizer que nunca sofreram um desgosto de amor e, permita-me dizer-lhe, ainda bem! Bem sei que o facto de ainda se sentir emocionalmente ligado à sua ex-namorada é, sobretudo, uma grande fonte de angústia e de frustração, mas estou certa de que o tempo ajudá-lo-á a ultrapassar a situação. Não sei há quanto tempo terminou essa relação, mas tenho dúvidas de que se tenha permitido viver o seu luto, já que, entretanto, iniciou um outro namoro. Não sei se estará a ser justo e honesto consigo mesmo (e consequentemente com a sua actual namorada), mas reconheço que se sinta, antes de mais, confuso.
Apesar de desconhecer os motivos que o levaram a recorrer à ajuda psicológica, sei que dessa aliança terapêutica poderão resultar estratégias eficazes para que gira as suas emoções de forma inteligente e segura. Seja tolerante consigo mesmo, invista no seu processo terapêutico e o tempo encarregar-se-á do resto.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Amor
FALTA DE AR: ASMA OU CRISES DE ANSIEDADE?
Tenho 16 anos e desde os 14 que tenho crises de ansiedade, medo de uma doença: ASMA. Quando começo a pensar muito numa coisa parece que isso realmente acontece como, por exemplo, a falta de ar. Não sei como enfrentar este medo. Será que tenho mesmo asma ou é a minha cabeça que faz com que isto aconteça?
D.
A asma é uma doença que pode ser diagnosticada com facilidade pelo seu médico de família. No entanto, a falta de ar é um dos sintomas mais comummente associados a transtornos de ansiedade. Quanto maior for o seu medo de adoecer, maior será a probabilidade de passar por crises de ansiedade acompanhadas de falta de ar. Ainda que não tenha asma nem qualquer outra doença de base fisiológica, sugiro que converse com o seu médico de família para que este possa determinar o tipo de ajuda de que precisa.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Ansiedade
BIRRAS POR TUDO E POR NADA
Tenho 23 anos e um filho com 3 anos e meio. Há uns meses eu e o pai dele desentendemo-nos e o pai saiu de casa. Entretanto estamos juntos outra vez, no entanto, noto que o comportamento do meu filho tem vindo a modificar-se. Não obedece, faz birras por tudo e por nada e mesmo dando-lhe palmadas (nao lhe bato "a sério") nao liga nenhuma... Começo a ficar sem saber como agir.
A.
Não posso estabelecer uma relação directa entre a recente saída de casa do seu marido (e posterior retorno) e as birras do seu filho, até porque não conheço os comportamentos anteriores da criança. No entanto, é provável que as mudanças dos últimos tempos tenham contribuído para a alteração do estado emocional do menino. De um modo geral, as crianças demonstram a sua tristeza de modo atípico e uma das manifestações de angústia pode ser a "famigerada" birra. Quanto maior for a estabilidade familiar, maior será a probabilidade de tudo voltar ao normal em pouco tempo.
No entanto, há algumas estratégias a que qualquer pai ou mãe pode recorrer para fazer face a episódios de clara desobediência. Importa, antes de mais, que haja uma boa dose de coerência entre o comportamento do pai e o comportamento da mãe nestas alturas. A definição das medidas a aplicar em caso de birras deve ser feita a dois, de forma realista, e aplicada com rigor. Se optarem por "ignorar" as birras, ou castigar a criança colocando-a alguns minutos isolada para que se acalme, as regras devem ser cumpridas em todos os episódios.
Importa ainda que se mantenham atentos a possíveis alterações de comportamento da criança e que recorram à ajuda externa se as dificuldades se agudizarem e/ou se se prolongarem no tempo.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Educação dos Filhos
CANSADA DO NAMORADO
Tenho 17 anos e nos últimos três anos tenho mantido uma relação amorosa com um rapaz de 19. No início era uma miúda encantada com um rebelde que me fazia sentir especial , que me dava tudo o que eu queria. A nossa primeira relação durou 10 meses e eu gostava realmente dele, acho que poderei dizer que o amava. No meu aniversário disse-me que estava apaixonado por outra, pensei que fosse uma brincadeira, mas não foi. Terminei duas semanas depois. Depois disso juntei-me mais umas 3 vezes com ele, acabando sempre por terminar, mas dessas vezes por minha causa, porque o sonho pelo qual me apaixonei tinha desaparecido. Em Setembro do ano passado voltei para ele, confiante que desta vez ia resultar. Na verdade, no inícios resultava sempre. Era sempre aquele doce, atencioso, tão querido. Depois o amor desvanecia. Ele tornava-se "vadio", nunca parava em casa, sempre um descuidado na escola, andando só por andar, estando nas tintas para tudo. Às vezes até para mim. Na verdade, as únicas vezes que tivemos um relacionamento algo romântico, com passeios de mão dada, festinhas e mimos, foi antes do sexo. Depois disso tudo tinha como intenção o sexo. Comecei a não ter prazer nenhum, e a fazê-lo só por fazer. Há uns meses aproximei-me de um rapaz da minha turma, travei amizade com ele e interessei-me. Fomos de viagem, e eu enrolei-me com ele, porque no fundo queria que isso acontecesse. Acabei por trair o meu namorado. Contei-lhe tudo, não na hora porque sabia que ele não reagiria bem, mas contei. E ele perdoou-me. Sei que demonstra muito afecto da parte dele, mas na verdade sinto-me um tanto confusa, e sinto que ele me perdoou por se sentir culpado. Hoje estou completamente confusa, não sei mais se o amo, ou se estou com ele por já serem três anos. A verdade é que não me arrependo de ter beijado o rapaz da minha turma, e sinto-me bastante atraída por ele. Valerá a pena continuar a namorar?
J.
Na sua idade o amor pode ser tão intenso como em qualquer outra. No entanto, a inexperiência e as inseguranças próprias da adolescência podem implicar alguma dificuldade em gerir as suas emoções, nomeadamente quando estas parecerem contraditórias. É provável que a tal rebeldia que tanto a atraiu no início desta relação tenha dado lugar a um conhecimento mútuo mais profundo, o que implica reconhecer os defeitos do seu namorado. Ao fim de três anos sentirá falta de outras experiências e isso tê-la-á levado à traição a que se refere. Do meu ponto de vista, esse comportamento não é mais do que uma tentativa involuntária de "agitar as águas". A verdade é que, mesmo que já não ame o seu namorado, ser-lhe-á sempre difícil acabar esta relação e essa dor pode parecer-lhe insuportável. O tempo encarregar-se-á de lhe trazer mais segurança e, independentemente das escolhas que faça, todas as experiências contribuirão para o seu amadurecimento.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Amor, Infidelidade
O MEU NAMORADO NÃO SAI DO QUARTO
Estou muito preocupada com o meu namorado, penso que ele está com uma depressão. Ele não sai de casa, deixou de estudar, e agora demitiu-se do trabalho porque diz que está farto. Neste momento passa os dias em casa e raramente sai. A única coisa que ele faz é jogar o jogo de computador dele que é o seu grande vício. Não faz mais nada há mais de um ano. O problema é que ultimamente ele está pior, antes ainda ia ligando à nossa relaçao mas agora deixou de falar comigo sem qualquer motivo. Mandou-me um e-mail em que dizia que não sabia o que se passava, apenas não queria falar com ninguém, pedia desculpas e disse que o problema nao era de mim mas sim dele e não entendia o que se passava. A única coisa que ele fazia de manhã era tirar o som o telemóvel e guardá-lo na gaveta do quarto. Entretanto resolvi ligar ao irmão dele (que é medico) sem ele saber, e contar-lhe tudo, e ele disse-me que Domingo tinha passado por casa do meu namorado mas que ele tinha a porta do quarto trancada e não a abriu sequer. Disse também que ia conversar com ele e fazer tudo para o ajudar. Sinceramente nao sei o que hei de fazer.. Preciso que me aconselhem, nao está fácil.
C.
A sua preocupação com o seu namorado é legítima e constitui, provavelmente, um dos recursos mais importantes para a recuperação. Independente de não ser possível fazer qualquer diagnóstico a esta distância, existem fortes indícios de que o seu namorado precisa de ajuda. Não estou certa acerca do grau de adicção do jogo a que se refere, mas posso assegurar que o isolamento social prolongado é indicador de transtornos depressivos que não devem ser ignorados. É provável que, aos olhos do seu namorado, o problema tenha uma dimensão completamente diferente, pelo que pode haver alguma resistência à ajuda especializada. No entanto, e apesar de existir pelo menos um médico na família, é imprescindível que o seu namorado possa estabelecer uma relação de confiança com um técnico de saúde mental que esteja emocionalmente distante desta situação, para que o acompanhamento possa ser frutífero.
HORA DE MUDAR
Estou casada há 30 anos e muitos foram passados em solidão mas sempre com a esperança no amanhã. Nunca chegou esse amanhã por que tanto espero. A falta de diálogo é uma constante, reconheço. O que queria, no fundo, era um carinho, uma vida conjunta e não ter de me anular. Hoje não tenho um único amigo. Toda a gente tem amigos e eu não. Não tenho colegas de trabalho, fui-me anulando em função da esperança de que o meu amor fosse correspondido. Hoje quero falar, não consigo e o meu escape é a escrita.
H.
A insatisfação conjugal era, até há alguns anos atrás, um mal menor, uma cruz que teria de ser carregada até ao fim da vida. Por isso mesmo, equacionar uma ruptura implicava a confrontação com muitos medos e preconceitos. Felizmente, o tempo passa e as mudanças tendem a ocorrer para melhor. O casamento é cada vez mais visto como uma escolha que se faz diariamente com o objectivo de promover a felicidade. Não faz sentido mantermo-nos presos a uma relação que, não só não nos satisfaz, como compromete outras áreas da nossa vida. Dir-me-á com certeza que não se termina um casamento de 30 anos como quem troca de camisa. Mas valerá a pena viver as próximas décadas sob um estado de amargura? Valerá a pena culpabilizar o cônjuge pela própria infelicidade? Se não, então é hora de mudar. As mudanças necessárias podem não passar por uma separação, desde que ambos estejam dispostos a esforços no sentido da reconstrução deste casamento. A mudança é, ou pode ser, em si mesma assustadora, mas representa também a oportunidade de fazer novas escolhas e de dizer a si mesma que morrerá a tentar ser (mais) feliz.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Amor
GERIR CONFLITOS EM GRUPOS DE TRABALHO
Tenho andado aqui a reflectir sobre conflitos interpessoais entre grupos de trabalho. Acontece que nos últimos três anos estive a tirar uma licenciatura e nunca assisti nem me senti envolvida em tantos conflitos. Antes de estar neste curso já havia tirado um outro e nunca me aconteceu coisa semelhante. Cheguei ao ponto de entrar em Burnout ou Depressão, já nem sei bem mesmo o que é que foi. Eu não sei lidar com situações de conflito ou quando as pessoas começam a falar mal umas das outras. Sinto-me mal e culpabilizada por tudo o que acontece, não conseguindo chegar a uma análse racional da situação, fico sem perceber o que se passou. Desde essa sequência de conflitos, fiquei com a sensação de que devo ser uma pessoa confluituosa e ando sempre com esta ideia na cabeça. Apesar disso, acho que sou uma pessoa que gosta de reflectir sobre os mais variados temas e envolvo-me demasiado física e psicologicamente em todos os trabalhos que faço. Dou sempre o máximo de mim e espero que os outros também o façam. E quando isso não acontece, às vezes fico furiosa. Agora depois destes anos, já procuro refelctir se não estou a exigir demasiado de mim e dos outros mas fico baralhada pois já parto do princípio de que o problema é meu e rotulo-me antecipadamnete como uma pessoa conflituosa! E fico à espera que todos confirmem essa minha certeza! Nunca tive tantas dúvidas em relação a mim própria. Acho que, apesar do meu perfecconismo e dedicação, sou uma pessoa divertida e acabo por criar um bom espirito. Ja aprendi que nem toda a gente funciona como eu! Além disso não sei lidar com situações de stress. Fico bloqueada, não conseguindo produzir! Por favor ajude-me e dê-me a sua opinião.
C.
Os conflitos entre pares são relativamente comuns, seja em contexto académico ou profissional. Algumas pessoas são mais sensíveis a essas situações de tensão e, por isso, mesmo, podem sentir maiores dificuldades em gerir a sua comunicação, oscilando entre comportamentos passivos (não dizendo nada, tentando evitar o conflito) e comportamentos agressivos (que nem sempre implicam gritos ou expressões ofensivas). A verdade é que quanto maior for a sua assertividade, isto é, a capacidade para, de uma forma clara e honesta expor o seu ponto de vista, sem medos, respeitando a posição do seu interlocutor, maior será a probabilidade de se sentir segura nas respectivas relações. Para as pessoas perfeccionistas pode ser especialmente difícil lidar com atrasos, incompetência, etc., pelo que a tensão pode crescer. Competir-lhe-á identificar as suas maiores dificuldades e trabalhar para que estas não comprometam o seu quotidiano. Se não se sentir segura em relação à forma como gere estas situações, poderá contar com o apoio de um psicólogo que a ajudará a promover esta competência social (assertividade).
© Cláudia Morais
Etiquetas: Ansiedade
O MEU NAMORADO NUNCA PEDE DESCULPA
Sinto-me desesperada... Não sei o que fazer... Namoro há cerca de 4 anos com o mesmo rapaz, há quase 3 estamos juntos em união de facto. Gosto muito dele e queria passar o resto da vida com ele. O problema é que, sempre que temos uma discussão, ele não se importa em resolver a situação e despreza-me o tempo todo (já chegou a ser mais de 1 mês assim, só falando o básico) até que eu decida falar com ele (depois de várias tentativas que acabam sempre por piorar a situação). Acaba sempre por me dizer que me faço de vítima e que ninguém me pode dizer nada que fico amuada! Sinto-me mal porque não é verdade! Quando o confronto com aquilo que ele fez de mal e que me magoou, nunca admite ou sequer pede desculpa, rodeando o assunto e acabando por dizer que se o fez foi porque eu provoquei ou a culpa é minha... Ignora-me durante os dias e à noite até parece que estou a dormir sozinha. Só quando ele decide que é altura de "fazer as pazes" é que me procura sexualmente. Ou seja, ele acha que o facto de termos sexo vai fazer com que eu esqueça o que aconteceu. Mas não é verdade. Agora estamos numa crise igual, já dura há mais de 1 mês. Eu fui com uma amiga a uma casa de chá (raramente saio de casa, há meses que não saía de casa a não ser para o trabalho, supermercado e visitar a minha mãe) e cheguei às 2h da manhã, quando tinha dito que por volta da meia noite estava em casa. Era uma Sexta-feira. Quando cheguei chamou-me nomes e gritou comigo (os vizinhos devem ter ouvido, as paredes que dividem são muito finas). Disse-me que nem era preciso ter ido dormir a casa, que só arranjo amigas que me desencaminham e só querem ser vadias... Magoou-me muito e passado uns dias procurou-me sexualmente como forma de fazer as pazes (apesar de mal falar comigo durante o dia) e eu ganhei coragem e disse-lhe que não aguento ter contacto físico com ele depois de tanta coisa má que me diz e faz. Acabou por me acusar de não querer fazer as pazes e por dizer que já não sinto desejo por ele (o que é mentira!) e que devo andar a traí-lo. A verdade é que frequentemente tento falar com ele na expectativa de resolver as coisas a bem, e só recebo desprezo ou gritos histéricos porque diz "já está farto de tanta conversa"! Sinto-me com o mundo a desabar, depositei toda a minha vida nesta relação porque o amo muito e sinto que não consigo viver sem ele apesar do que me faz sofrer. Nunca o traí, sempre o respeitei, dou carinho, atenção, compreensão... Não sei o que tenho de mal para ele me tratar assim... Sinto-me sem coragem para viver...
I.
Quanto maior é o amor que nos une a uma pessoa, maior é a probabilidade de nos sentirmos profundamente magoados e infelizes aquando de uma discussão. Se por um lado todos nós reconhecemos que também nos excedemos nas discussões conjugais, é-nos sistematicamente mais difícil aceitar que a pessoa que amamos é capaz de nos dizer coisas terríveis. A verdade é que à medida que as discussões se agudizam é fácil perder o controlo da situação e transformar uma conversa mais acesa num braço-de-ferro de que ambos acabam por sair magoados.
De um modo geral, os casais mais felizes aprendem a controlar a escalada das discussõem e implementam, com sucesso, tentativas de reparação que não são mais do que formas de quebrar o gelo, arrefecer a cabeça e impedir que a briga entre por caminhos que possam ameaçar a relação. Estas tentativas de reparação podem passar por frases como "Desculpa, mas estou demasiado enervado(a) para continuar esta conversa" ou "Preciso de me acalmar" ou por gestos apaziguadores. A eficácia destas pequenas tentativas de reconciliação depende, como se percebe, da capacidade que os membros do casal têm para entender estes gestos como protectores da relação e não como fugas ao problema.
Por outro lado, é óbvio que não é saudável para uma relação amorosa que os cônjuges possam estar muito tempo "amuados", numa situação de mera co-habitação. Dar o braço a torcer implica ter a capacidade para pedir desculpa, engolir o orgulho e investir na reaproximação, sob pena de o desprezo minar a relação.
Existem algumas diferenças entre homens e mulheres que podem agravar os ciclos das discussões - por um lado, a generalidade dos homens sente-se mais acelerado perante as discussões ou mesmo perante tentativas mais ou menos serenas de se conversar sobre os problemas, pelo que tendem a fugir a quaisquer conversas potencialmente geradoras de tensão; além disso, a reaproximação sexual depois de um momento de tensão é mais facilmente aceite por homens do que por mulheres. Como as mulheres precisam quase sempre de se sentirem emocionalmente estáveis para voltarem a investir na intimidade sexual, podem sentir-se ultrajadas quando uma tentativa de aproximação desta natureza precede a existência de qualquer conversa. Sentem-se usadas, desconsideradas, ainda que, na verdade, o companheiro não tenha qualquer intenção de desprezar o problema.
Quando as discussões e/ou os silêncios ensurdecedores tomam conta do dia-a-dia do casal, é importante parar para pensar no que pode estar a acontecer. A manutenção destes ciclos pode contribuir para o crescente afastamento emocional dos membros do casal, pelo que quanto mais cedo for feito o pedido de ajuda terapêutica, maior será a probabilidade de sucesso.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Amor
MARIDO PROCURA MULHERES NO HI5
Sou casada há 19 anos, tenho 43 anos e 2 filhos. Tenho tido até agora uma relação estável, mas descobri há 2 meses que o meu marido tem por hábito "relacionar-se" com outras mulheres na Net e que até pediu a um amigo se lhe emprestava o apartamento para passar um bocado com uma "amiga" casada. Confrontei-o com o facto, ainda tentou desmentir, mas acabou por admitir. O encontro não chegou a acontecer, ele diz que era um escape ao stress, uma fantasia que tinha, uma vez que, tal como eu, nunca tinha estado com outra pessoa. Claro que fiquei chateada mas ele diz que gosta de mim e que quer continuar comigo. Tentei ultrapassar esta situação, ele é carinhoso (sempre foi) mas voltei a descobrir há dias que continuava a contactar com diversas mulheres na Net e inclusive tem Hi5, onde continua a adicionar mulheres e onde diz que anda "à procura de mulheres". Recebe e envia fotos e vídeos pouco decentes, sei que sempre que pode está no MSN secreto que tem à conversa com outras mulheres. Estou desesperada, não sei o que pensar nem fazer, preciso de ajuda urgente.
N.
Apesar do número crescente de queixas de relações extraconjugais com início em contactos através da Internet, não creio que devamos diabolizar a Web, nem as plataformas de comunicação como o MSN ou o Hi5. Tal como acontece em relação ao telemóvel, estas são vias que adoptamos para comunicar com quem queremos e/ou com quem procuramos. O facto de o seu marido se relacionar com outras mulheres através da Internet até poderia ser inócuo, desde que fosse feito "às claras" e de forma despreconceituosa. Contudo, mesmo aos olhos do seu marido, aquilo que está a acontecer é merecedor de alguma reserva - ao esconder estes contactos (negando-os a posteriori), o seu marido acaba por atribuir ao próprio comportamento alguma perigosidade.
A verdade é que sempre que nos sentimos na necessidade de ocultar as nossas escolhas do nosso cônjuge é porque algo não está a correr bem - seja ao nível da comunicação conjugal, seja ao nível do próprio comportamento.
Mesmo que não tenha existido qualquer traição física, houve com certeza algum investimento em relações que não serão compatíveis com o casamento. É importante que reflicta sobre a forma como se sente, quer em relação ao seu casamento, quer em relação ao comportamento do seu marido e que procure conversar abertamente sobre esses sentimentos. O facto de amar o seu marido não deve calar a sua mágoa ou a sua revolta. Importa que seja capaz de definir os limites que está disposta a tolerar, sob pena de este ser o princípio de um permanente mal-estar. Fazer exigências não é um sinal de instransigência ou de ciúme, mas antes uma prova de amor-próprio e uma tentativa de proteger a relação.
© Cláudia Morais
Etiquetas: Amor, Infidelidade
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