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TENHO VONTADE DE MORRER





Carta original:
Eu trabalho, estou na faculdade e tenho um namorado bom. Eu não percebo porque é que nada me satisfaz… Sofro porque me sinto muito sozinha. Moro sozinha, acho que as pessoas da minha família não se importam, pois não ligam… Não me procuram. Sinto-me só, carente, algo que o meu namorado não consegue suprir. Eu sofro pelos outros, pois queria resolver os problemas de quem amo. Mas não consigo. Há noites em que choro sem parar e a minha única vontade é dormir e nunca mais acordar. Aprendi a sofrer sozinha, em silêncio. Por isso sou fechada. Não costumo ser sociável com as pessoas, atrapalho-me. Todos dizem que tenho o semblante triste. Cresci sem o amor de um pai e a ver a minha família desmoronar-se com o tempo. O meu passado atormenta-me! Hoje não tenho vontade de fazer nada. Embora esteja no caminho certo, sinto-me perdida, sem direção. Não tenho vontade de ser alguém na vida, embora eu tenha tudo para dar certo. O meu desânimo é imenso. Penso sempre em fazer disparates: Morrer, porque seria um descanso eterno… Algo já me segurou bastante para eu não fazer nada disso. Eu sei que preciso de ajuda. Tenho 23 anos e ajo como se a minha vida já tivesse acabado. O que é que eu faço?
Ana

NÃO TENHO AMIGOS




Carta original:
Tenho 20 anos e desde que me conheço que sei que tenho um problema e já procurei ajuda que sinto que não está a resultar. Sinto uma enorme vontade de acabar com a minha vida cada vez que me confronto com situações adversas, não tenho amigos e fico em pânico com a possibilidade de ter de conviver ou falar com alguém. Quando era mais nova era gozada na escola pela minha timidez e aspecto físico, era a típica "crominha" da turma e chamavam-me de sonsa. E ainda hoje continua a ser assim - ando na faculdade e continuo a ser gozada e pouco apreciada pelos meus colegas. Na verdade, para além dos meus pais, nunca tive ninguém que gostasse de mim e por isso sou muito apegada a eles. Não sei se o meu problema se trata de uma simples depressão, mas a verdade é que isto afecta-me não só a mim como aos meus pais e estou desesperada. Quando penso que tudo acabará com a morte fico aliviada mas ao mesmo tempo sinto-me pressionada a ser feliz para não fazer sofrer os meus pais. Infelizmente, dou demasiada importância ao que os outros pensam de mim e passo a vida a pensar nas situações negativas (gozo, julgamentos de carácter, etc.) pelas quais passei. Preciso constantemente que me digam que gostam de mim e que me aprovem como pessoa para me aceitar a mim própria mas como isso quase nunca acontece estou sempre triste. Sinto que nunca vou ser feliz porque não me consigo desligar destes pensamentos. Acordo e adormeço desesperada sob um sufoco que se prolonga pelo dia todo e tenho momentos de muita irritação e choro (chego a sair das aulas para ir chorar para a casa de banho)... Não sei o que fazer, já cheguei ao extremo do egoísmo, porque só me consigo concentrar na minha tristeza e nas pessoas que não gostam de mim e que me tratam ou trataram mal... 
Ana Rita

ATAQUE CARDÍACO OU ATAQUE DE PÂNICO?



Carta original: 
O meu caso é igual ao do Sr. Silva - sou lutador de jiu jitsu e não consigo treinar, nem fazer qualquer exercício, por medo de um ataque cardíaco. Já fui parar às urgências várias vezes e… nada - batimento cardíaco e pressão normais. Não consigo dormir e não sei o que fazer - a falta de ar é muito grande, sinto dor no peito, nas costas e na barriga, não consigo relaxar. Acho que o meu caso foi agravado porque fumava e parei abruptamente (não bebo nem uso outras drogas). Estou a tomar fluoxetina mas isto está a deixar-me esquisito. Ando nisto há quase três meses mas não deixei de trabalhar. É horrível, meço a pulsação a cada minuto. Há alguma alimentação que me possa ajudar? Se eu voltar a fumar (não quero) posso melhorar e parar de tomar remédios? O diazepam e a fluoxetina estão a deixar-me doido. Cheguei a tomar meio diazepam à noite mas acordava como se estivesse de "ressaca". Já não sei o que fazer. Há dois anos fui a um cardiologista e fiz provas de esforço físico - não deu absolutamente nada. Devo voltar ao cardiologista? Será que posso voltar a praticar exercício de forma leve? Isso ajudaria ou atrapalharia? Tenho 38 anos, 1m81, e 80 kg (tinha, já estou com 76). Há várias pessoas na minha família que já tiveram isto - avô, mãe, irmã, tios e primos.
Pedro

FILHA DE PAIS DIVORCIADOS






Carta original:

Tenho 18 anos e sou filha de pais divorciados desde os 9. Quando era mais nova pensava que o divórcio não me afectava, mas desde há um ano que sinto um certo desconforto. Não queria ter os meus pais juntos, pois eles não se entendiam. Dois anos depois do divórcio eles deixaram de se falar e eu tornei-me numa bola de ping-pong, um fala mal do outro quando estou presente e o contrário também se sucede. O meu pai tem um temperamento difícil; teve uma infância dura e hoje não fala com o pai nem com os irmãos; vive bem; não sabe lidar com os outros, quer tudo à maneira dele; A minha mãe não soube governar-se sozinha, tem um tecto e nunca lhe faltou alimentação, ainda assim não vive tão bem como o meu pai; Por vezes sinto-me desequilibrada, com a minha autoconfiança em baixo, muitas vezes não sei como agir, e tenho medo do que os outros pensem, sou muito tímida e não gosto, mudo de ideias muito facilmente e por vezes é difícil ser tolerante com os outros. Sinto que tenho uma vida complicada.
Diana

NAMORADO COM DEPRESSÃO?






Carta original:

O meu namorado entrou na universidade num curso que é bastante exigente, mas onde sei (e vejo) que ele tem imenso talento e criatividade. Como a instituição é privada, ele viu-se obrigado a continuar a trabalhar por turnos numa fábrica para poder pagar a mensalidade. O problema é que essa fábrica situa-se na nossa terra natal (a uma hora de viagem da universidade) e, muitas vezes, ele passa noites acordado a tentar terminar os trabalhos práticos da faculdade. Embora eu ache que a quantidade de trabalhos que a faculdade envia por dia/semana é exagerada, a verdade é que ajudava muito se ele estivesse a morar na cidade universitária, como os estudantes fazem. O problema é que ele insiste que, assim, teria que pagar alojamento e mensalidade, e que não teria dinheiro para isso só com um part-time. Recentemente, entregou um trabalho para o qual se esforçou imenso (e que eu, embora seja suspeita, confesso que estava mesmo muito bom!), mas o professor criticou o trabalho em questão. A partir daí, o meu namorado ficou triste, deprimido, cabisbaixo, pessimista e sem vontade para nada. Como a mãe dele teve uma grande depressão há uns anos, (estando eu a estudar Psicologia) sei que esse antecedente ainda contribui mais para uma possível depressão dele, uma vez que ainda há o stress, a grande pressão na universidade e no trabalho, o esforço físico, o cansaço e a falta de horas bem dormidas. Não sei o que fazer para ajudá-lo, e queria evitar que esta situação se tornasse realmente em doença. O que me aconselha?
Joana

ANSIEDADE GENERALIZADA






Carta original:

Ultimamente tenho sofrido bastante com a ansiedade. Tenho frequentemente medo de doenças, tenho uma sensação de um caroço na garganta há quase dois anos. Já fui ao médico várias vezes, dizem que eu não tenho nada mas quando engulo saliva sinto algo. É terrível, parece que a vida parou, não consigo desligar-me destes pensamentos… Há dias fui ao médico e não aguentei, desmoronei, até chorei e não é fácil um homem de 35 anos chorar. Ele receitou fluoxetina, que estou a tomar de manhã mas está difícil viver assim com esta angústia. Estou desesperado, não sei o que possa fazer.
Pedro

DISMORFOFOBIA – PREOCUPAÇÃO EXCESSIVA COM A IMAGEM




Carta original:

Tenho 19 anos e tenho problemas por causa da minha aparência. Desde pequeno que tenho bastantes sinais que são herança genética do meu pai mas nunca lhes dei muita importância. Por volta dos 16 anos comecei a sentir-me mal e hoje nem ao espelho me vejo para não ter que ver a minha cara e o meu corpo. Aos 18 anos a situação ficou mais grave, sentia-me bastante mal, comecei a andar bastante irritado, respondia mal a toda a gente, principalmente em casa. Não havia 1 dia em que eu me sentisse bem, não conseguia olhar para as pessoas nos olhos, deixei de ser a pessoa que era e comecei a ser mais arrogante. Durante o verão tinha estágio, que não consegui acabar. Desisti porque me custava sair à rua de dia, estar rodeado de pessoas e estar sempre a comparar-me com elas. Chegava à noite e ficava no meu quarto a chorar durante horas, não sabia o que havia de fazer. Até que o meu pai me levou ao médico e ele me receitou uns comprimidos que não deram em nada. Às vezes penso “será que estou a ser injusto em dar tanta importância à minha aparência e aos meus sinais?”. Mas depois vejo pessoas com muito menos sinais que eu que fazem cirurgias para os remover e pessoas que apenas têm uma borbulha ou duas na cara e fazem daquilo um bicho-de-sete-cabeças, quem me dera a mim ser como eles.
André

PAIXÃO INTERROMPIDA





Carta original:

Chamo-me Paulo tenho 47 anos e gostava de partilhar este pesadelo com alguém que está habituado a este tipo de situações. Conheci a Luísa em 91, já eu era casado, envolvemo-nos emocionalmente, foi uma paixão com uma carga elevada. Nessa altura a minha mulher ficou grávida e tudo terminou radicalmente. Estivemos 17 anos sem nos vermos e falámos ao telefone 4 ou 5 vezes. Em 2008 a Luísa telefonou-me e daí surgiu uma troca de e-mails acabando por nos encontrarmos. Quando nos vimos foi como se nos tivéssemos separado há uma semana. Chegámos à conclusão que os nossos casamentos estavam no fim. Em 2 anos, com grande esforço, demos a volta à nossa vida, divorciámo-nos e tudo indicava que o nosso projecto de viver juntos fosse real. Não contámos com a reacção da filha dela que tem 10 anos. Tudo se complicou, a filha fez de mim um alvo a abater. Sem solução e com opções limitadas, não tivemos outra opção senão acabarmos com um sonho e a vida de duas pessoas que se amavam acabou num estalar de dedos. Foi brutal. Andei com uma depressão, de momento já estou em recuperação, tenho que olhar em frente e seguir a minha vida.
Paulo

DESESPERADO




Carta original:

Acho que foi por acaso que entrei no seu blogue pois estava à procura de um site que me mostrasse como me matar sem dor! Sim, há muito tempo que penso nisso. Sinto-me sem rumo. Nunca consegui parar num emprego certo. Sou ilustrador mas nunca me consegui realizar nessa profissão. Namoro há dois anos mas a minha namorada ameaçou abandonar-me dizendo que sou um preguiçoso! Cheguei ao meu limite. Se não há um Deus, então por que hei-de prolongar este sofrimento?! Desculpe se pareço dramático. Não sou disso mas sinto-me realmente perdido!
Emerson

SOU INSEGURA





Carta original:
Tenho 22 anos e ultimamente tenho reflectido muito sobre a minha vida, apercebendo-me de que nunca fui feliz porque tenho uma auto-estima baixa, sou insegura, solitária e ansiosa. Sinto que nunca aproveitei bem a minha vida porque dentro de mim existe sempre um conflito constante: sei que tenho algum problema mas não consigo alterá-lo, pois ninguém sabe o que verdadeiramente se passa comigo, e como tal não tenho qualquer apoio quando arranjo desculpas para desistir de procurar ajuda profissional. A razão de desistir? Não sei ao certo, mas confesso que estou a chegar ao meu limite, dado que já tive várias depressões (apenas uma delas diagnosticada, tratada com antidepressivos mas sem psicoterapia) e sofri sempre em silêncio. Há poucos meses tive outro episódio depressivo (se é que assim lhe posso chamar), e com muita vergonha admito que ao longo da vida, pontualmente, pensei que se morresse seria melhor, mais fácil. É-me difícil admitir tudo isto, porque sinto vergonha perante mim própria (imagine-se perante os outros), sinto-me fraca - não acho que tenha razões para ter baixa auto-estima ou ser insegura; pelo contrário, sou uma rapariga bonita e inteligente. Este padrão de comportamento persegue-me, numa ou outra medida, desde a infância. Recordo- me de ser muito insegura e dependente, e não sei a razão, pois os meus pais, apesar de a maior parte da sua vida conjugal ter sido muito conturbada, sempre me deram muito amor. E o resultado de tudo isso é o que se pode esperar de pessoas mal resolvidas: nunca tive grandes amizades, sou tímida e insegura, o meu primeiro relacionamento foi um falhanço total já que o meu primeiro amor era emocionalmente/psicologicamente (e, por vezes, fisicamente) abusivo. Hoje tenho um namorado muito calmo, carinhoso, que gosta muito de mim e tem muita paciência comigo. Mas eu sou fonte de conflito neste relacionamento, agindo muitas vezes tal como um dos meus pais agia no casamento, e tal como o meu ex-namorado agia para comigo. Sempre fui bem-sucedida nos estudos, apesar de ter altos e baixos devido a esta instabilidade emocional. Hoje estou a tirar um curso superior e não sou tão bem-sucedida quanto antes, e sei que poderia ser melhor se não fosse esta insegurança! Tenho medo porque sei que estou a prejudicar a minha vida no presente, e que isto se irá projectar no meu futuro... Não sei a razão de tudo isto, gostaria de acreditar que esta não é a minha personalidade, que não nasci para ser infeliz, e que eu consigo mudar, porque continuando desta maneira, tenho a certeza de que nunca serei feliz.
Marisa

DEPRESSÃO PÓS-PARTO NÃO TRATADA






Carta original:
Fiz uma depressão pós-parto há cinco anos, voltei a ser mãe há um ano e sinto que esta nunca ficou bem resolvida, não com o filho mais novo mas sim com o mais velho. Os sintomas estão mais atenuados mas na realidade estão aqui. Na altura fiz acupunctura e tomei um antidepressivo natural, tentei psiquiatria mas não correu bem. Estou super cansada e consciente de tudo.
Manuela

DESILUDIDA COM A VIDA





Carta original:

E o que fazemos quando se teve uma vida muito complicada como criança e jovem mulher e depois se trabalhou arduamente, mesmo que isso implicasse deixar de ver a filha o suficiente, para mais tarde nos "cortarem" a profissão, nos porem a fazer um trabalho que odiamos, e um dia ver a nossa filha em coma (recuperou felizmente), ter um processo disciplinar por faltas dessa altura, ficar com fibromialgia, ver o nosso corpo transformar-se num monstro, e acabar por ser um "boneco" nas mãos de uma entidade patronal, ao ponto de preferir fazer um acordo e sair, mesmo sabendo que nunca mais vou ter outro emprego...  A Vida não presta, nunca prestou. Com 51 anos já ninguém me quer para trabalhar, muito menos naquilo que eu gostava e sabia fazer...  A minha vida dava um conto, costuma-se dizer... Pois até que dava, um e com laivos de terror...
Marisa

ANDAR COM UM HOMEM CASADO

Tenho 25 anos e sinto que estou a morrer a cada dia que passa! Vivi cerca de 3 anos com um homem estupendo a todos os níveis e que, acima de tudo, me amava incondicionalmente, no entanto, nunca me senti verdadeiramente apaixonada por ele e no que respeitava a relações sexuais eram quase inexistentes porque eu não tinha qualquer desejo por ele. A certa altura conheci um colega de trabalho e desde a primeira vez que o vi fiquei completamente fascinada por ele. Ia para casa a pensar nele, voltava para o trabalho a pensar nele... Enfim, tudo se começou a resumir a ele até que fui fazendo "investidas" demonstrando assim o meu interesse. Um dia, num jantar de colegas de trabalho, envolvemo-nos e começámos então com encontros regulares (ele também mantinha uma relação já de algum tempo com outra pessoa). Com o tempo vi que não estava a aguentar viver numa mentira e decidi sair de casa, abdiquei de toda uma vida de luxo e de um homem que gostava verdadeiramente de mim e fui viver sozinha. Fi-lo também para poder viver em plenitude esta relação. A partir daí os encontros passaram a ser muito mais regulares, quase todos os dias, porque ele tem a casa oficial no Norte e trabalha comigo em Lisboa, e só vai a casa aos fins-de-semana. Já passou um ano e as coisas continuam na mesma, ou seja, passa a semana inteira a dormir comigo, a fazer programas comigo, a levar-me a jantar fora etc., divertimo-nos imenso e passamos momentos verdadeiramente inesquecíveis. O problema é que eu já não consigo viver nesta situação por muito mais tempo. Amo-o demais para ser a outra, a minha vida resume-se a ele e quando chegam os fins-de-semana é como se fosse morrendo aos poucos porque sei que está com outra e está provavelmente a fazer-lhe aquilo que me faz a mim durante a semana. Já falámos diversas vezes sobre o assunto. Ele diz-me que gosta imenso de mim, como sou a mulher mais bonita com que alguma vez já esteve, como sou a primeira mulher a dar-lhe o sexo mais fantástico da vida dele, como adora estar comigo, como pensa em mim nos fins-de-semana, etc., mas quando chega a parte em que lhe digo que as coisas não podem continuar assim e ele tem de escolher, ele escolhe sempre o querer acabar a relação que tem comigo porque sabe o quanto me está a fazer sofrer e diz também que não suporta ver-me na depressão em que me encontro. Confronto-o muitas vezes com isso e pergunto-lhe como é que é tão fácil para ele abdicar de mim, no entanto, ele diz que não é fácil e que eu não faço ideia de como lhe custa fazer isso. Na verdade, cada vez que falamos disto ele acaba também por chorar, depois eu digo que vou pôr um fim a isto e ele diz que é o melhor, começa a ir embora e eu acabo por nunca deixar; corro sempre atrás dele peço-lhe para ficar novamente e as coisas voltam sempre ao mesmo. Falamos algumas vezes da relação que ele mantêm com a outra e as coisas que ele diz a esse respeito são sempre más, então eu confronto-o perguntando se é tudo mau porque é que ele não fica comigo mas ele nunca sabe o que dizer. Pergunto-lhe porque está comigo e acaba sempre por me dizer que é por nunca ter conhecido alguém tão especial como eu. Como nunca acredito digo-lhe que me pode dizer a verdade e confronto-o dizendo que está comigo só por causa do sexo e quando digo isto ele fica completamente ofendido, diz que se quisesse sexo tinha em outros lados e diz que para ele chega desfrutar da minha companhia, diz que chegam-lhe os carinhos que fazemos um ao outro e que não precisamos de fazer sempre sexo (embora façamos todos os dias). Diz que tem um sentimento muito grande por mim. Não tenho forças para deixá-lo, no entanto, sinto que também já não tenho forças para continuar assim... Nunca acredito em nada do que me diz, penso que está sempre a mentir, passo a vida a ver o telemóvel dele às escondidas. Ando a ficar louca com isto porque faço filmes na minha cabeça e nunca são a meu favor. Sinto que a traição é comigo porque na minha cabeça é quase como se eu fosse a legítima porque sem dúvida neste último ano ele passou todas as semanas comigo enquanto que com ela só partilhou alguns fins-de-semana. Não sei como ultrapassar isto, só sei que não durmo, não como, não saio com ninguém, passo a vida a olhar o telemóvel porque dependo de uma mensagem dele para começar o meu dia, passo o dia a tentar saber onde está, com quem, a fazer o quê.., Sinto que estou obcecada por ele.., E não sei o que este homem quer de mim nem tão pouco como consegue manter estas duas relações já há tanto tempo.
A.

Quase todas as pessoas ambicionam encontrar alguém por quem se apaixonem e com quem se sintam seguras para viver a dois. Não raras vezes, cruzamo-nos com pessoas que consideramos estupendas e que mostram que gostam de nós de forma genuína, mas o facto de não sentirmos o mesmo amor leva-nos a deixá-las para trás. A isto também chamo inteligência emocional, na medida em que não faz sentido mantermos uma relação com alguém que acarinhamos mas que jamais amaremos no sentido romântico. Mas se isto é verdade, também não faz sentido que mantenhamos uma relação com alguém que mostre que não nos merece e/ou que não investe na relação na medida em que gostaríamos.

Não posso fazer quaisquer conjecturas acerca do que o seu companheiro sente por si e muito menos me passaria pela cabeça ajuizar sobre o sofrimento dele nesta situação, mas posso e creio que devo chamar a sua atenção para algo que me parece óbvio: a leitora está a dar muito mais do que recebe. Apesar de esta não ser uma situação confortável para si, o seu companheiro tem sido muito claro no que diz respeito à importância que a leitora ocupa na vida dele. Repare que apesar dos momentos positivos que têm vivido a escolha dele está feita - o seu companheiro não concebe, de todo, a possibilidade de ficar ao seu lado, deixando a mulher que tem no Norte.

Ainda que a vossa relação não seja exclusivamente marcada pela intimidade sexual, a verdade é que esta é provavelmente a grande mais-valia da relação aos olhos da pessoa que ama. De resto, está claro para mim que a leitora não está a receber aquilo de que precisa para se sentir feliz, segura, e isso estará a afectar a sua auto-estima. O facto de se sujeitar a viver numa relação em que é "a outra" pode estar relacionado com fragilidades antigas que podem e devem ser alvo de análise cuidada. A leitora é demasiado nova para se acomodar a uma situação em que é claramente desrespeitada e prejudicada. Bem sei que lhe é difícil romper uma relação com a pessoa por quem, apesar de tudo, se sente apaixonada, mas é tempo de pensar verdadeiramente em si, nas suas opções e naquilo de que precisa para ser feliz. Não sendo fácil dar estes passos sozinha, peça ajuda especializada. Um psicólogo experiente ajudá-la-á a gerir melhor as suas emoções.

HIPOCONDRIA E CRISES DE PÂNICO

Sou brasileiro e tenho 20 anos de idade. Tenho depressão há 5 anos, sou hipocondríaco e desde pequeno sofro de ansiedade, mas jamais pensei que fosse chegar ao extremo em que cheguei. Em 2007 tive algumas crises de pânico após ser internado com suspeita de meningite e ter ficado 4 dias tomando soro. Mesmo após ter sido comprovado que era apenas uma virose e que já estava tudo bem, senti-me perseguido pelo medo de repetir a experiência. Comecei a ficar inquieto e a correr o dia todo na esperança de livrar a mente de qualquer pensamento, tudo em vão, pois começava a chorar, gritar, bater nas paredes e não deixava que chegassem perto de mim. Fiz tratamento com uma ótima psicóloga e apresentei melhoras impressionantes, porém desde o começo deste ano tenho trabalhado constantemente e minha saúde tem estado muito fraca, tanto que descobri sofrer de Prolapso da Valva Mitral, o que acarretou novas crises de ansiedade. Mais recentemente tive uma intoxicação alimentar e fui obrigado a tomar medicamento em soro novamente, não preciso dizer que surtei no hospital e todos acharam que se tratava de alguma reação alérgica, não dando muita atenção ao meu desespero, porém simplesmente aplicando um anti-alérgico e me deixando sofrer. Consegui me acalmar no momento em que removeram a agulha, respirei fundo e melhorei. No dia seguinte já estava melhorando (ontem), mas sentia muita dor no braço, acredito que por ter ficado duas horas com uma agulha esteja me sentindo um pouco impressionado e com medo. O fato é que hoje acordei com o pescoço duro, um pouco dolorido e a primeira coisa que pensei foi "meningite", tenho pavor ao ouvir a palavra ou ao ver o médico mexendo em meu pescoço para ver se há algo errado. Surtei novamente, comecei a correr, chorar e consegui me acalmar após cerca de meia-hora, o pescoço relaxou e sobrou apenas o mal-estar, porém apenas uma hora depois meu pescoço ficou rígido novamente, para meu desgosto. Tenho medo de perder o controle sobre meu corpo, tenho muito, mas muito medo de sentir meus músculos se mexendo sozinhos e de não conseguir manter a calma. No momento não posso consultar minha psicóloga e preciso de ajuda para conseguir me acalmar e me sentir bem, antes que acabe fazendo alguma besteira. Espero que me ajude com palavras de conforto e talvez até mesmo algum exercício para manter a calma. Muito obrigado.
A.

A primeira coisa que gostaria que interiorizasse é que compreendo a sua angústia e que a sua descrição, ainda que transpareça o seu profundo desespero, é simultaneamente pedagógica, na medida em que ilustra bem aquilo que diariamente oiço da boca de tantos pacientes que me procuram exactamente pelos mesmos motivos. Saiba que existem milhões de pessoas em todo o mundo que passam por aquilo por que o leitor está a passar e que o "clique" para que recorram à ajuda especializada pode passar por acederem a mensagens como a sua. Sabermos que os nosso problema afecta outras pessoas não é em si mesmo uma solução, mas constitui um alívio importante porque normaliza uma situação que é profundamente angustiante e que pode toldar a nossa percepção, levando-nos a acreditar que somos "loucos" ou anormais. Claro que não é saudável viver sob estes níveis de ansiedade e, nesse sentido, importa reconhecer que há passos que podem e devem ser dados para que readquira a sua normalidade, o seu bem-estar, a tranquilidade que já conheceu e que merece.

Como afirmo tantas vezes, quer no que diz respeito à nossa saúde física, quer no que toca à nossa saúde emocional, cada pessoa deve ser capaz de reconhecer que é o seu próprio principal cuidador. Nesse sentido, e ainda que me solidarize com o seu sofrimento e com a angústia que terá sentido aquando do confronto com algumas medidas clínicas que desvalorizaram a componente emocional da sua reacção, compete-me chamar a sua atenção para a necessidade de o leitor assumir a responsabilidade de partilhar, em contexto clínico, o seu histórico de ansiedade. Se um médico que o acompanhe numa urgência hospitalar tiver imediatamente acesso às dificuldades emocionais por que tem passado, ser-lhe-á mais fácil fazer uma avaliação rigorosa da situação. Por exemplo, é óbvio para mim que a sua reacção à tentativa de o colocarem a soro não foi mais do que um episódio de pânico, em que o episódio traumático do passado tomou conta de si, bloqueando-o. Ora, os técnicos que intervieram nessa situação não teriam como saber destes dados, a menos que o leitor os desse a conhecer.

Eu também sei que nem sempre é fácil assumir estas fragilidades, para mais quando a cabeça está repleta de ruminações à volta de doenças graves. Mas quanto maior for o seu auto-conhecimento e o seu à vontade para se revelar, maior a probabilidade de se ver livre de situações arriscadas que rapidamente o transportam para ciclos viciosos perigosos.

Desconheço os motivos que o impedem neste momento de voltar a consultar a sua psicóloga, mas recomendo vivamente que não deixe de ser acompanhado por um clínico experiente e em quem confie. Mais do que ninguém, o leitor já conhece os benefícios da ajuda especializada, pelo que importa que faça uso dessa experiência dando a si mesmo a oportunidade de voltar a sentir-se estável. Independentemente desta ajuda, creio que pode e deve seguir algumas dicas que o ajudarão a sentir maior controlo sobre a situação:

  • Não se isole. Nos picos de ansiedade agarre no telefone e fale com alguém da sua confiança. Na impossibilidade de contactar com um amigo ou familiar, procure conversar com alguém que esteja fisicamente mais acessível. Até uma conversa trivial sobre o tempo pode ajudá-lo a interromper os ciclos de ruminações.
  • Faça desporto, mas opte por actividades em grupo. A corrida pode abrir espaço para os pensamentos automáticos negativos na medida em que não requer a sua concentração.
  • Treine o seu cérebro no sentido de interromper os pensamentos negativos - oiça música, cante as suas músicas preferidas, anote a letra das canções. O simples facto de se concentrar no poema implicará que o seu cérebro se distraia do que o angustia.
  • Procure identificar aquilo que o entristece e escreva sobre isso. É possível que a fuga à tristeza esteja a agudizar o transtorno ansioso. Organizar os pensamentos é o primeiro passo para organizar as emoções.

COMPULSÃO ALIMENTAR

Tenho, desde o início da minha adolescência, uma relação de paixão/ódio com a comida. Ao longo do tempo e com o acesso a mais informação, percebi que o meu problema tinha nome - compulsão alimentar ou, de acordo com a designação da Dr.ª, voracidade alimentar. Entre os meus 15 e 30 anos (idade que tenho agora) o meu peso já variou entre os 45 e os 65 quilos. Passo a vida entre as dietas e as fases de compulsão... Tive comportamentos bulímicos, estive muito perto de uma anorexia, isolei-me, tinha medo de sair, de conviver, tinha vergonha do meu corpo e culpei-o por tudo o que de menos bom me acontecia. Daqui resultou uma auto-estima muito frágil, uma insegurança enorme, problemas de ansiedade (já não durmo sem medicação há mais de 5 anos) e uma certa instabilidade emocional. Agora, com 30 anos e depois de ter tentado vários tipos de ajuda - nutricionista, psiquiatra, uma experiência com a psicologia - qual o caminho que deverei seguir? Já assumi o problema perante familiares e namorado, quero muito tratar-me, mas não sei que via seguir. (Sou da zona Norte (Braga), pode aconselhar-me tratamento na minha zona?) Desde já agradeço a atenção que me possa conceder.
L.

Tal como acontece com a maior parte das mulheres que enfrentam transtornos do comportamento alimentar, presumo que já tenha acedido a uma vasta quantidade de informação sobre esta matéria, bem como à diversidade de tratamentos disponíveis. O facto de ter assumido o problema, quer para si mesma, quer para as pessoas de quem gosta, é positivo mas eu também sei que implica uma vulnerabilidade maior. A voracidade alimentar está muitas vezes relacionada com a dificuldade em gerir as emoções e as relações afectivas e acaba por ser a tradução da necessidade de sentir algum controlo sobre a própria vida, pelo que me é fácil estimar que da partilha que já fez com o seu namorado e com a sua família possa resultar algum desespero e até a sensação de incompreensão. Permita-me no entanto louvar o seu discernimento e incentivá-la a continuar o caminho a que já deu início. A resposta à sua pergunta é a perseverança. Não sei o que correu mal nas diferentes intervenções clínicas a que se submeteu, mas sei que o mais seguro será procurar um médico e um psicoterapeuta que possam acompanhá-la e em quem confie. A intervenção multidisciplinar é efectivamente a mais eficaz nestas perturbações, pelo que importa que combine o acompanhamento médico e farmacológico com a psicoterapia (que poderá ser extensível a algumas pessoas da sua família, pelo que recomendo vivamente que procure um psicólogo com formação em terapia familiar). A procura deste tipo de ajuda pode não corresponder imediatamente às suas expectativas, mas deve lembrar-se que é responsável por si mesma e pelo seu bem-estar e que não é justo desistir às primeiras contrariedades. Sinta-se à vontade para colocar todas as dúvidas que tiver aos clínicos que estiverem a acompanhá-la e, se ao fim de algumas consultas não se sentir ajudada, procure outro técnico. Não deve sentir vergonha por querer o melhor para si. Estas são dificuldades que atingem muitas pessoas em todo o mundo e que podem ser tratadas.

Em Braga há com certeza profissionais especializados nesta área, pelo que poderá pedir uma referência ao seu médico de família. No Porto costumo recomendar o Prof. António Roma Torres, Psiquiatra com formação vastíssima em terapia familiar e cujos contactos encontrará facilmente na Internet e/ou nas listas telefónicas.

FILHOS DE ALCOÓLICOS

A minha questão é se os filhos de pais alcoólicos tambem podem vir a desenvolver o mesmo vício e as mesmas caracteristicas violentas. O meu pai era alcoólico e batia muito na minha mãe - era um ambiente horrível naquela casa. Vivo com o meu namorado há 9 anos, ele tambem é filho de pai alcoólico e o meu medo é que ele venha a seguir os passos maus do pai, como do álcool e da violência, porque às vezes reage da mesma forma que o pai dele.
F.

O alcoolismo é uma perturbação que não afecta apenas o doente, mas cujas consequências, físicas e emocionais, se estendem SEMPRE à família - daí que a intervenção clínica seja, idealmente, multidisciplinar com a necessidade de incluir terapia familiar e/ou terapia individual para os familiares. Tal como a leitora carrega ainda hoje as marcas, as vulnerabilidades, que resultaram do facto de ter crescido numa ambiente familiar pautado pela violência e pelo medo, é altamente provável que o seu namorado tenha as suas próprias feridas emocionais resultantes do desenvolvimento associado a um pai alcoólico. Isto não significa que o seu namorado venha a reproduzir os padrões comportamentais do próprio pai, nem que venha a tornar-se num alcoólico. Contudo, é importante que ambos reconheçam que aquilo por que passaram na infância e na adolescência deixou marcas e que, só se falarem abertamente sobre aquilo que sentem, poderão sentir-se livres para reivindicar aquilo de que precisam. Em muitos casos, os adultos filhos de alcoólicos desenvolvem transtornos depressivos e ansiosos que podem manifestar-se por irritabilidade constante e explosões de agressividade que em nada beneficiam a comunicação conjugal. Conter os seus medos é, provavelmente, o pior caminho. Importa que mostre as suas emoções, aquilo que a fragiliza, identificando de forma clara aquilo de que não gosta no comportamento do seu namorado, mas procure evitar as críticas pessoais e a comparação com o comportamento do seu sogro, já que estes ataques pessoais poderão ferir o seu namorado, mais do que ajudá-lo a compreender a sua preocupação. Considere ainda a possibilidade de recorrerem à terapia familiar no sentido de poderem falar sobre estas questões sensíveis num ambiente emocionalmente seguro.

A DEPRESSÃO E O AMOR

Foi-me diagnosticada uma depressão, que ando a tratar e a medicar, embora já tenha marcado nova consulta com o psiquiatra porque acho que não estou a melhorar. Estava numa fase muito desmotivante a nível de trabalho, comprei casa há uns meses com o namorado de há muitos anos e estamos a pensar casar para o ano. A questão que me preocupa é que de repente, passei a olhar para o meu namorado e a pensar se ainda gosto dele. Parece que sinto indiferença por ele, e estando a pensar em casar, isso tem-me obcecado os pensamentos e anda a preocupar-me verdadeiramente. É que o que menos quero é sentir isto, quero voltar a estar bem com ele. É natural numa depressão ter estes sentimentos por quem se gosta? Eu despedi-me do meu trabalho porque não estava bem mas não quero de forma nenhuma abdicar do meu namorado. Acho que estou a ficar louca, por pensar isso, quando ele sempre foi tão querido comigo. Estes pensamentos são normais?
M.

Desconheço os factores que estarão por detrás da sua depressão. Compreendo que o desgaste profissional a que se refere pode ter desencadeado uma depressão reactiva, mas não posso ter a certeza de que não existiram outras circunstâncias por detrás do seu adoecimento. De qualquer modo, quero assegurá-la de que a depressão pode efectivamente condicionar a forma como olhamos para as nossas relações afectivas, pelo que não raras vezes me deparo em contexto clínico com a angústia que agora partilha. Pode ser difícil discernir sobre o que é a causa e o que é a consequência, isto é, reconhecendo que um dos sinais da depressão é precisamente o desinteresse generalizado, é legítimo que se questione se estará a sentir-se deprimida e confusa porque já não gosta do seu namorado ou se esta incapacidade de se sentir segura em relação aos seus sentimentos é mais uma consequência da perturbação emocional que foi diagnosticada. Fez muito bem em recorrer à ajuda médica e, apesar de eu não saber há quanto tempo está a fazer esta medicação, compete-me chamar a sua atenção para a importância de estabelecer uma relação de confiança com o médico que a está a acompanhar. Não raras vezes é preciso esperar várias semanas até que as primeiras mudanças comecem a ser sentidas, mas é fundamental que se sinta confortável para expor as suas dúvidas ao seu médico e que a toma dos medicamentos seja rigorosamente monitorizada. Este acompanhamento regrado permitirá, por exemplo, fazer os ajustes necessários a uma recuperação sólida e relativamente célere.

Do meu ponto de vista seria importante complementar o tratamento médico com a intervenção psicoterapêutica. Um psicólogo experiente ajudá-la-á a estruturar as suas emoções e a gerir as suas relações afectivas com maior segurança. Como estimo que as suas inseguranças possam estender-se ao seu namorado, pode ser importante envolvê-lo no processo terapêutico. Deste modo, poderão unir-se no sentido de enfrentarem este período mais confuso do percurso a dois.

VAZIO EMOCIONAL

Tenho 21 anos e sempre me senti mal comigo mesma, o sentimento que me invade constantemente e que sempre me acompanhou (desde que me lembro) é um vazio constante, como se me faltasse algo que nao sei definir com clareza! Quando entrei para a universidade tive o meu primeiro namorado, que se mantém até hoje. No entanto, começámos de forma precipitada e sempre tivemos várias discussões. Sei que fiz dele o meu "saco de pancada" e descarregava nele todas as minhas frustrações e agora tento remediar o irremediável, talvez. Por outro lado, penso em acabar com ele porque acho que já não vai resultar. Ultimamente estou mais calma e tenho tentado aprender a gostar de mim e a aceitar as circunstâncias, pois acredito que talvez seja esse o causador do vazio que me persegue. Sempre fui demasiado tímida e na escola lembro-me de me dizerem que era uma seca - esse adjectivo persegue-me até hoje e estou em constante autocrítica e a repudiar-me por ser tão diferente do meu grupo de amigos. Ja perdi grandes amigos ao longo da vida e tenho tendência a culpar-me por isso. Nao sei mais o que pensar nem como agir! O livro que tenho andado a ler chama-se "Auto-estima - como aprender a gostar de si mesmo" de Nathaniel Branden e tem-me dado muito alento. No entanto, nem sempre é facil fazer as coisas sozinha e gostava de pedir a sua opinião para saber se devo procurar ajuda especializada.
P.

Não conheço detalhadamente o seu percurso de vida nem posso avaliar por esta via a dimensão da sua angústia e da sua melancolia. Algumas pessoas são efectivamente mais melancólicas do que outras, sem que isso indicie qualquer perturbação de humor. Noutros casos, mesmo que não haja um episódio depressivo grave, a pessoa pode estar a viver uma situação de distimia, que é uma forma de depressão mais leve mas que pode arrastar-se por muito tempo quando não há qualquer tipo de acompanhamento.

O facto de os seus amigos se referirem a si de forma negativa pode implicar que queiram, sobretudo, vê-la mais enérgica e animada, mas importa que o seu auto-conhecimento a impulsione a assumir-se tal como é e a reivindicar ser aceite com todas as suas características. Estou certa de que os seus amigos não são pessoas perfeitas e que, mesmo que sejam bastante mais extrovertidos, terão os seus momentos de tristeza e abatimento. Não faz sentido que queiramos estar ao lado das pessoas de quem gostamos apenas quando estas estão animadas. Pelo contrário, gostar de alguém implica estar "lá" em todas as horas, mesmo nas mais difíceis.

Claro que não posso ser indiferente ao facto de ter referido que tem "perdido" alguns amigos importantes ao longo do tempo. Este é um comprometimento importante do seu bem-estar, pelo que provavelmente a ajuda especializada será mesmo uma mais-valia. Um psicólogo experiente ajudá-la-á a gerir melhor as suas emoções, a perceber a origem do seu abatimento e a promover a estabilidade dos laços afectivos.

ADOLESCENTE DEPRIMIDA?

Acho que estou com uma depressão. Tenho 15 anos e vou para o 10.º ano, há muito tempo que me sinto revoltada com várias situações, não gosto da família que tenho, é disfuncional. Sou uma rapariga de boas aparências, não me acho nada feia, mas tenho falta de auto-estima. Sinto-me triste quase todos os dias e quando estou perto dos meus amigos disfarço e faço-me de feliz, estou constantemente a comparar-me a outras pessoas, já tive pensamentos menos bons acerca da minha vida, não gosto do padrasto que tenho. Acha este comportamento normal, tendo em conta que sou adolescente?
C.

Embora não tenha quaisquer dados que me permitam elaborar um diagnóstico, devo alertar-te para a possibilidade de o teu caso não se tratar exactamente de depressão. Compreendo que te sintas muito angustiada com alguns dos problemas familiares a que te referes e que isso contribua para a diminuição da tua auto-estima. A revolta que descreves é absolutamente normal, na medida em que já não és uma criança e vês hoje as relações familiares com uma maturidade diferente. Ainda assim, não tens ainda a autonomia de um adulto, pelo que é legítimo que a raiva seja a emoção predominante. Independentemente dos detalhes do teu percurso familiar e da relação que tens com o teu padrasto, acredito que só a passagem do tempo permitirá determinar o peso real destas questões. À medida que crescemos confrontamo-nos com os erros daqueles de quem mais gostamos, de quem dependemos afectivamente e isso faz-nos sofrer. Mas a verdade é que ninguém é perfeito e cada um de nós precisa de se sentir aceite tal como é.

Não creio que faça muito sentido esconderes a tua tristeza na presença dos teus amigos. Lembra-te de que os amigos são a família que nós escolhemos e as relações são tão mais próximas quanto maior for a nossa capacidade de nos expormos. Se os teus amigos acederem às tuas fragilidades, é possível que exponham as suas também. Enquanto psicóloga e terapeuta familiar posso dizer-te com toda a segurança que não existem famílias perfeitas e que os problemas de cada família só são verdadeiramente conhecidos por quem lá está dentro. As famílias com quem convives e que te parecem muito melhores do que a tua terão os seus próprios problemas, porventura mais sérios.

ANSIEDADE E BLOQUEIOS EMOCIONAIS

Desde há algum tempo que estou preocupado com uma situação. Penso que sofro de ansiedade, umas vezes de uma forma mais extrema, outras vezes menos extrema. É o seguinte: fiz uma cirurgia de extracção de um ciso incluso há cerca de 10 anos. Até aí nunca tive grandes sintomas de ansiedade. Acontece que essa cirurgia correu bastante mal e o dentista não conseguiu extrair o dente, por este ter subido para a cavidade nasal. A partir daí o médico dentista informou-me que já não podia mexer mais e que já não era do foro dele, e que teria que procurar, mais tarde, um ortodontologista, caso o dente viesse a ter alguma actividade prejudicial. A partir do momento em que saí do consultório, nesse mesmo dia, e depois nos dias seguintes, tive uma angústia e ansiedade tão grandes que não sei descrever, por preocupação do que poderia acontecer ao tal dente do ciso não extraído, se iria ter problemas de saúde graves no futuro por causa disso ou não, enfim... foram noites de insónia total, dias inteiros em que não estava bem em lado nenhum, suava em demasia, quase que entrava em pânico. Vou apenas descrever muito rapidamente o que sentia: durante o dia a minha cabeça estava a mil à hora, ou seja, comecei a sentir uma tremenda necessidade de combinar saídas com os meus amigos, porque em casa não me sentia nada bem. Até receber a resposta deles, sentia uma angústia tremenda e uma ansiedade indescritível, com medo de eles não poderem. Se a resposta fosse positiva para um ou dois deles, mas houvesse quem não pudesse ir, sentia logo a ansiedade ainda mais aumentada, porque pensava logo "então mas agora quando vou ver o amigo Y? Onde vai estar ele? Porque é que não pode?", e isso fazia-me confusão, não ter certezas em relação à "minha agenda", uma ansiedade terrível. Até lá em casa tinha necessidade de saber tudo ao pormenor, andava angustiado. Mesmo quando estava com os meus amigos, que era o meu objectivo diário, constante (como se fosse um escape para mim - a ideia de não estar com eles por impossibilidade deles ou minha era para mim uma angústia impossível de descrever), não estava bem, porque depois pensava "aqui neste bar eu até gosto, mas gostava de ter ido a outro, ou passear a outro lado, etc". Ou seja, tinha sempre a cabeça a mil e com uma ansiedade indescritível. Até quando chegava a casa, se não estivesse ninguém, eu entrava em angústia, eu que antes desse primeiro episódio, sempre adorei estar sozinho em casa, por estar à vontade e fazer o que bem quero e me apetece. Depois tudo passou e fiquei novamente "normal". O 2.º episódio aconteceu quando cheguei ao último dia de férias: nessa noite recomeçaram exactamente os mesmos sintomas e ideias (o dente do ciso já nem era preocupação). Agora o 3.º episódio, embora menos intenso, ocorreu na semana passada, quando ia fazer exame nacional para tentar acesso à faculdade (algo que sempre quis e fui adiando): deixei tudo para a última hora até que a minha namorada, que foi quem me impulsionou a ir para a faculdade por saber que sempre quis ter um curso superior, me disse que parecia que eu estava a enganar toda a gente e a mim próprio, porque digo que vou, ela apoia, e depois acabo por não estudar nada e deixar tudo para o próximo ano lectivo (já lá vão 4 anos que lhe prometo que vou para a faculdade e nada...). Bum! Outra vez os mesmos sintomas de angústia, não estou bem em lado nenhum, e ao mesmo tempo quero estar com toda a gente, e entro num processo de angústia terrível se souber que não posso combinar com os meus amigos, porque tenho já coisas combinadas com a minha namorada por exemplo. Será que esses pensamentos assim tão recorrentes são um sinal de transtorno obsessivo-compulsivo, ou trata-se de ansiedade extrema? São episódios que passam com alguma rapidez e levo muitos anos sem os ter. Quando não os tenho sinto-me lindamente, sem angústia e ansiedade, tirando algumas preocupações que são o normal do dia-a-dia de cada um de nós.
C.

As diferentes situações que descreveu são condizentes com níveis muito elevados de ansiedade. Estas crises de ansiedade são muito mais frequentes do que possa imaginar e são-no ainda mais na população masculina. Estão normalmente associadas à dificuldade em vivenciar e gerir emoções negativas como a tristeza e traduzem-se no medo exacerbado de não conseguir controlar alguma coisa. Repare que, sendo o primeiro episódio que descreveu claramente preocupante, seria legítimo que sentisse medo. Mas o medo não tem de ser algo que nos domina e descontrola totalmente. Pelo contrário, o medo protege-nos, impede-nos de cometer erros graves ou de corrermos riscos desnecessários. O facto de ter sido confrontado com uma situação alarmante com o dente do ciso deveria conduzi-lo aos passos necessários para garantir a sua saúde. É possível que o médico que o atendeu não tenha sido muito claro em relação aos procedimentos que deveria implementar e, por algum motivo relacionado com vulnerabilidades antigas, o leitor sentiu-se muito inseguro e emocionalmente bloqueado.

Mais tarde o medo de não controlar a realidade à sua volta traduziu-se nas saídas com os amigos. De facto, ninguém consegue controlar tudo, todos os procedimentos, mas isso não implica que vivamos assustados. Creio que naquela altura ser-lhe-ia extremamente difícil estar sozinho porque isso implicaria uma angústia e uma sensação de desamparo insuportáveis. Nesses momentos, o ideal é telefonar a alguém, falar sobre o que está a sentir e pedir ajuda para que a situação seja desdramatizada. Mas estamos ainda a falar apenas da gestão do problema. Identificar a sua origem implica provavelmente uma análise muito mais cuidada e morosa.

O medo de, mais uma vez, não controlar tudo ter-se-á manifestado novamente nos últimos anos a propósito da sua entrada para a faculdade. É fácil perceber que o leitor depende maioritariamente de si mesmo, mas isso não significa que controle tudo e muito menos que, ao dar o seu melhor, estudando afincadamente, não se exponha à rejeição que resultaria de não ser admitido. Pelo que me é dado a perceber, os seus medos estarão a impedi-lo de concretizar alguns sonhos, o que, sendo muito frequente, como referi antes, não deixa de ser uma fonte de angústia.

Não faz sentido escamotear o problema, mesmo que este não esteja presente em todas as áreas da sua vida. Competir-lhe-á discernir sobre o que quer para si bem como sobre aquilo que é capaz de suportar em termos da gestão da ansiedade e do comprometimento do seu bem-estar.